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Experiências transformadoras

Certo dia, enquanto aguardava as informações para o embarque num barulhento aeroporto, reparei um grupo de jovens que vagueava como pássaros livres, indiferentes às ofertas dos espaços comerciais.

Experiências transformadoras
Pe. Nélio Pita, CM
12 de março de 2025

Os aeroportos são lugares de encontro, salas de espera de uma humanidade em permanente transito. Certo dia, enquanto aguardava as informações para o embarque num barulhento aeroporto, reparei um grupo de jovens que vagueava como pássaros livres, indiferentes às ofertas dos espaços comerciais. De mochila às costas, com calçado desportivo e roupa ligeira, tagarelavam entre si enquanto avançavam por entre corredores abrindo caminhos novos entre a multidão. Voltei a encontrar o mesmo grupo na porta de embarque. Apesar de numerosos, pareciam formar uma família. Talvez fossem alunos numa viagem de finalistas, pensei. Depressa percebi que eram jovens católicos que estavam por um grupo de adultos e, entre eles, um sacerdote. Já no avião, aproximei-me do colega e perguntei «quem eram e o que faziam»? Disse-me que pertenciam a um movimento da Igreja, que iam para participar num trabalho voluntário entre população pobre. Despedi-me do grupo logo após o desembarque. O padre pediu-me, em tom humorado, «por favor, reze por estes selvagens». Eles riram-se sonoramente e, em instantes depois, viu-os todos juntos, em ambiente de algazarra, para a foto de família. Uma família feliz e comprometida.

Quando revisitamos a nossa história vocacional percebemos que houve momentos chave, experiência fundantes, períodos em que “se abriram os nossos olhos” perante uma nova realidade. Foram momentos Kairós, isto é, momentos de graça, instantes transformadores em que algo estremeceu dentro de nós despertando-nos de grande sono. A partir daquele momento, depois daquela visão, compreendemos que já não podemos continuar no mesmo modo de vida, como se nada tivesse ocorrido. Há uma certeza, uma ideia em modo de semente, que germina, lenta e determinadamente, que procura concretizar-se numa nova aventura. O sujeito “sabe sem saber”. Reconhece ainda de forma tímida o que pretende fazer com o dom da sua própria existência. Talvez encontre alguém, um parteiro que o ajude a nascer, que o faça crescer e encontrar o seu lugar no mundo entre os homens.

A adolescência e a primeira etapa da juventude é um tempo de sonhos que configuram uma nova identidade. O sujeito constrói-se não penas como resposta às expetativas sociais, mas também motivado pelas antigas perguntas: A que devo consagrar a minha vida? Onde está Deus? Porque é que existe o mal no mundo? Porquê a desigualdade? Que devo fazer para dar resposta aos problemas concretos?

Muitas histórias vocacionais começam precisamente nesta faixa etária. Quando vivem uma experiência semelhante àquela que proporciona um campo de férias, um tempo de voluntariado em terras de grande privação, uma JMJ, um encontro de Taizé, uma peregrinação a um santuário, entre outras, “abrem-se-lhe os olhos” e já nada pode ser como dantes. Uma inesperada epifania obriga-os a seguir por outra direção. Há um desejo de encetar um percurso em fidelidade à novidade que brota do mais íntimo. Rasgam-se novos caminhos. Dispõe-se a tudo como quem encontra um grande amor. E por causa desse grande amor, tudo é possível!

As nossas instituições são chamadas a promover este tipo de iniciativas. As estruturas de uma simples paróquia ou de um colégio, num contexto urbano ou numa aldeia esquecida do interior, podem ser lugares onde as novas gerações, em diálogo com as mais velhas, encontram respostas às profundas inquietações. Inseridos numa comunidade de batizados comprometida e dinâmica, os neófitos aprendem ler a realidade com os olhos do Evangelho e começam a ensaiar soluções para problemas que afligem a humanidade. Unidos a uma família, animados pela mesma fé, graças as estas vivências, os jovens compreendem que ser discípulo de Jesus é colocar-se ao serviço dos outros, em especial da população fragilizada. São formados para não ceder à tentação de uma cultura que repete, por exemplo, que há cidadãos de primeira e outros de segunda, que a guerra é inevitável, que apenas a riqueza material é fonte de felicidade e a verdadeira fraternidade é impossível. O Evangelho encarnado através destas experiências concretas torna-se um laboratório de transformação pessoal e social. O Reino de Deus faz-se presente.

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