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A ilusão da saudade

Uma vez ouvi falar que a saudade poderia ter nome, cheiro e endereço. Não sabia ao certo se me deixava levar pela imaginação alheia ou se deveria ir diretamente ao dicionário para entender melhor aquele ardor que me invadia o peito.

A ilusão da saudade
Isabella Mendes
19 de março de 2025

Uma vez ouvi falar que a saudade poderia ter nome, cheiro e endereço. Não sabia ao certo se me deixava levar pela imaginação alheia ou se deveria ir diretamente ao dicionário para entender melhor aquele ardor que me invadia o peito.

Prontamente fui racional, entre dezenas de paginações encontrei algo que me deixou estupefata: saudade pode ser uma lembrança grata, mas também pode ser pesar.

Ela também está relacionada com a nostalgia e a sensação de incompletude.

A melhor tradução seria: a mesma coisa que te faz sentir melancolia é a que um dia foi responsável por te colocar o maior e o melhor sorriso na face. Essa duplicidade envolve a todos nós, alguns com mais intensidade e outros com menos, mas não nascemos sem essa tal amiga.

Já ouvi relatos de que diversas pessoas, homens e mulheres, inclusive crianças, o sentem como se fosse algo estranhamente antigo. Uma saudade incomum do que ainda não conheceram. Saudade de uma vida que nunca viveram. De uma atmosfera que nunca tocaram.

Sons de natureza e imagens de montanhas, campos…Esses são os meus favoritos, como se eu tivesse sido feita para estar sempre ali, como se o meu lar fosse tudo o que me remetesse ao que nos “dá” vida.

Então, será que podemos dizer uns aos outros : “eu te entendo”?

Se somos tão infinitos e profundos quanto o mar, quanto sentimento ainda não fomos capazes de traduzir e definir com precisão?

Mesmo refletindo muito, nunca fui inteiramente convencida pelo que essa palavra representa.

Como imigrante, conviver com algo tão inóspito eu diria que é um incómodo. Principalmente quando eu começo a trazer à tona algumas lembranças e vejo que a bendita (nada de maldições por aqui) saudade tem criado cenas fictícias, tem acrescentado falas e momentos que antes não estavam ali. Como posso confiar que o que sinto é verdadeiro e não uma saudade inventada?

Já estive em estágios diferentes de dor por causa dela.

Passei pelo desespero, pela angústia, pela solidão, pelo vazio, pela amargura, pelo rancor, passei até por desertos inexplorados, era algo como um pânico acumulado.

Mas às vezes, bem às vezes, a saudade é escolhida.

Quando se trata de sonhos e propósitos, a história muda.

A sociedade se move com um interesse diferente, e tudo o que importa é chegar e conquistar seus objetivos. Tudo o que importa é se sentir realizada.

Para todos nós que escolhemos sentir essa saudade, o que nos cabe é gratidão. Por todo tempo vivido, aproveitado e experimentado. Sim, perdemos muita coisa no decorrer do nosso caminho, deixamos para trás muitas pessoas e convívios, mas dentro de nós, sabemos que ciclos se encerram por uma razão: fomos criados para irmos mais longe.

Um conselho de irmã:

Não tenha medo de escolher sentir saudade.

Melhor é ser corajoso ou corajosa e se afogar nesse imenso universo de descobertas, do que viver preso para sempre com receio de sentir.

O ardor, afinal, não some. Nós nos acostumamos com ele, às vezes brilha intenso, às vezes se apaga como o céu no inverno.

A quem nunca escolheu a saudade, se apegue ao que te fazia sorrir. Até mesmo esse emaranhado de sensações pode ser o melhor sentimento da sua vida. Basta pensar: essa saudade minha, alguém mais poderia experimentar?

Mesa Redonda
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